terça-feira, 11 de maio de 2010

MONÓLOGO

(Sentado num degrau, de joelhos dobrados, com a cabeça apoiada nos mesmos, sussurra) Óscar - Quem sou eu? (poucos risos sinicos) Não sei! Quando me olho ao espelho vejo alguém que por fora é atractivo e que por dentro é frágil. Não! Não posso viver sem aquela pessoa que me abraça, que me mima, que me beija, não posso viver sem a minha mãe. Perde-la é morrer. (Levanta a cabeça e aumenta o tom de voz) Morte! Morte! A morte é algo em que penso todos os dias. A morte é algo que me mete medo e ao mesmo tempo me fascina. Não me assusta a morte, assusta-me a forma de morrer. (Põe um pé no degrau de baixo) A minha vida é toda ela repleta de incertezas. Todos os dias me questiono Quem sou eu? O que faço aqui? Qual é o meu futuro? Não quero ser imortal, quero ser inesquecível. Quero ser recordado pelas minhas acções, quero ser recordado pelas minhas escrituras, quero ser recordado pelas minhas palavras. Palavras de amor que lhe dei, palavra de sofrimento que senti por ela, palavras de alegria ao acordar todos os dias, palavras de tristeza por adormecer na esperança de um dia melhor amanha, palavras de encantar a todos, palavras, palavras que voam e fogem por entre as nuvens que escondem o sol do meu céu. Amor não é mais que dor. Amor não é mais que um sofrimento continuado. Mas amar para viver e viver para amar é o meu lema. Amar-te a ti, ama-la a ela, amar-me a mim próprio. Amar o outro, amar o mesmo. Nada é mais belo que amar. Nada nos completa que não seja amar, mas ao mesmo tempo, amar conduz à tristeza, à dor, (faz uma pausa e num tom de voz alto e grave, com um ar sério exclama) à MORTE! (Levanta-se calmamente e anda devagarinho na boca de cena) O futuro é algo que me faz pensar ainda mais, não sei como vai ser mas sei o que quero fazer. A minha vida é o palco, a minha vida são as luzes, as roupas, as personagens, os actores. A minha vida, aquilo que unicamente e sem pedir nada em troca me faz feliz, o TEATRO. Estar em cima de um palco a representar é mudar de vida, é entrar noutra pessoa, é esquecermos os nossos problemas e incorporarmos os problemas da personagem. Os dramas, os sentimentos, os amores, as amizades, os desejos. Todo o rumo da minha vida mudou quando um policia bateu à porta de minha casa e disse a mim e à minha mãe que o meu pai tinha tido um acidente de carro e tinha tido morte imediata. (emocionado) Desde esse dia que sou outro, sou frio, arrogante. Lembro-me desse dia como se fosse hoje. Vivia-mos no Porto, e a minha reacção foi pura e simplesmente sair de casa, passear sozinho entre ruas e ruelas, deixar cair lágrimas sobre as águas do rio, que carrega com ele mil e uma mágoas. Porque ninguém, (grita e levanta-se mandando a cadeira para o chão) NINGUÉM sabe o que é perder a pessoa em quem mais confiamos, em quem mais acreditamos, aquele que sabe tudo sobre nós, que nos aconselha, que nos ajuda. É nestas alturas que interrogo a verdadeira razão de viver, vale mesmo a pena existir num mundo onde só existe violência, dor, mágoa, infelicidade? Porque é que o mundo não é como aquele que nos contam quando somos crianças, onde os meninos podem correr, saltar, brincar à vontade. Na minha infância nunca soube o que é brincar, nunca tive essa oportunidade. E talvez tenha sido isso que me fez lutar agora com toda a força por aquilo com que sonho desde criança. É com dezassete anos que enfrento esta nova aventura, nova cidade, nova casa, novos amigos, nova escola, nova vida. Não me arrependo. (senta-se na boca de cena) Há vezes que para superar uma certa dor precisamos de mudar de ambiente. Se me disserem que morrer não é solução quando se perde um pai, eu respondo, não é, mas para aqueles que sejam fracos, como eu pensava que era, é o caminho mais fácil. Mas conheci uma pessoa, alguém que me fez abrir os olhos e lançar-me à vida. (fala de forma entusiasmada) Foi essa pessoa que me fez vir para Coimbra, que me fez lutar pelo meu sonho. E sabes que mais? Acabo de desconfiar que a vida não me quer claramente bem, porquê? Porque acabo de perder essa mesma pessoa, num acidente de carro outra vez. Se pudesse matava quem tinha inventado tal engenho estúpido, a maior arma mortífera existente à face da Terra. Uma pessoa que só se preocupou com o dinheiro e não com a vida das pessoas. (correm lágrimas pela cara) Aliás, isso é o que acontece com todos aqueles que mandam no nosso país, na nossa comunidade, no nosso mundo. Neste momento sinto-me como uma ilha, SOZINHO. (pega em duas fotografias e começa a queimá-las) E é sozinho que vou continuar, porque o fogo tudo leva. Ao queimar-vos sei que vos detenho no meu coração, mas sem vos ver à minha frente. Amigos são aqueles que me safam, mas que muitas vezes me desiludem. Também eles me fazem sofrer, tudo na vida me faz sofrer. Mas afinal, não sei explicar o porquê de ainda aqui continuar, de ainda aqui estar. Estou em cima deste palco por amor, mas um amor que já me fez sofrer. Como sempre, a vida faz sofrer. Amar faz sofrer. Mas viver é amar, amar é viver. 
Óscar Martins 09/12/09

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